Quando cheguei ao destino, alguém que (felizmente, para mim) ainda estava acordado abriu-me a porta e, para não perturbar o descanso de mais ninguém, improvisei uma cama na sala do piano, que comunica com o hall de entrada e a sala de estar, sala onde há sempre colchões, lençóis, edredons e toalhas para visitantes.
Entretanto, já encontrei um quarto provisório, numa casa próxima da primeira e também daquela que será a minha terceira morada aqui. Esta última será já uma solução de alojamento permanente para mim, até ao final do meu período de assistência. Para já, a tal terceira e última casa (salvo seja) não tem ainda espaço para mim - só terá a partir de Novembro - mas foi negociada antes mesmo da minha vinda: é casa da Jane Hoy, actriz da London Playback Theatre, uma das companhias com as quais estou a trabalhar aqui e com a qual vou fazer a minha primeira performance no Reino Unido já na segunda-feira, dia 17 de Outubro, no prestigiado Royal Festival Hall (Southbank Centre).
Seguiram-se reuniões de planificação do meu trabalho com a Escola e as duas companhias que agora tenho o privilégio de integrar como performer, assistente administrativa e executiva de comunicação.
Comecei rapidamente a fazer trabalho administrativo e de comunicação para a Escola, e a participar nos ensaios e na vida organizativa das companhias London Playback Theatre e a True Heart Theatre.
O workshop "Singing in Community" decorreu na Igreja Unitariana de Essex, no fim-de-semana de 1 e 2 de Outubro e pretendeu estimular (através do canto em grupo, da harmonia e do movimento autêntico) um sentido de comunidade entre as pessoas - objectivo que o próprio Teatro Playback prossegue. Tive oportunidade de avaliar qualitativamente o seu impacto nos participantes e devo referir a experiência foi muito intensa e bonita para todos.
Esta acção de formação foi coordenada por Veronica Needa, directora da Escola e Jo McAndrews, uma Natural Voice Practitioner e maestrina/directora de coros com 11 anos de experiência, que pertenceu a um extraordinário grupo acapella de Bristol, chamado Naked Voices (lamentavelmente já extinto). Deste workshop nasceu um coro comunitário, com o qual tive o primeiro ensaio ontem à noite.
O meu trabalho como assistente de Veronica Needa na Escola não têm, aliás, sido pródigo a gerar actividades complementares, que contribuem sobremaneira para o meu crescimento como performer, formadora e futura coordenadora de formação em Teatro Playback.
Acompanho a Veronica a conferencias e debates relevantes, performances de Teatro Playback de outras companhias e espectáculos de Teatro com aspectos de multiculturalismo e consciência social, que são caros tanto para ela como para mim. Não posso deixar de destacar a peça de Teatro documental a que fui assistir com ela depois do trabalho, no dia 4 de Outubro - isto porque constatamos que o guião dessa peça (Afghan Monologues) contem uma importante referencia à formação em "Playback" no Afeganistão - iniciada por um formando da Escola em que trabalho - como estratégia de terapia e empowerment de pessoas que atravessam crises social e pessoalmente traumáticas.
Devo ainda referir os estímulos da Escola à minha própria formação e o meu investimento nesse domínio. Por exemplo, para desenvolvimento da minha sensibilidade física como actriz e reforço da vontade, determinação e concentração, no dia 22 de Outubro participarei num workshop de indrodução ao método Suzuki, ministrado por Ichiro Nakayama. Dada a importância do psicodrama no âmbito Teatro Playback e seguindo um conselho que recebi da Veronica enquanto ainda estava em Portugal, formalizei junto do London Centre for Psycodrama (com referências da própria Veronica e da Jane) a minha candidatura a um Certificate Psychodrama Course de 10 meses e fui aceite, depois de preencher um exigente formulário e de passar por uma rigorosíssima entrevista. O curso é ministrado aos fins-de-semana no Maudsley Hospital, que fica em South London e implica um investimento considerável da minha parte, mas é crucial para o meu desenvolvimento profissional, enquanto formadora de Teatro Playback.
Não me apetece muito falar de dificuldades, porque as encaro como desafios, mas a verdade é que existem algumas:
1) O funcionamento do metro (Underground): supostamente por causa de obras de preparação da rede para os Jogos Olímpicos, a circulação sobre muitas interrupções, atrasos e supressões. E o passe mensal para as zonas 1 e 2 custa mais de 100 libras!
2) Abrir conta num banco: aqui, como em Portugal é impossível sem comprovativo de morada e isso eu só vou ter em Novembro. Até lá, e a menos que consiga apresentar no balcão de um qualquer banco inglês algum documento que o "sistema" entenda como probatório de que estou aqui no país a trabalhar ao abrigo de um Programa Europeu que promove a mobilidade e a aprendizagem ao longo da vida, os levantamentos de dinheiro e pagamentos através da minha conta bancária portuguesa estão onerados pelas taxas da praxe (quando não são mesmo impossíveis).
3) Aquando da minha candidatura a este período de assistência não pensei em solicitar apoio para gastos de saúde, mas tinha de facto necessidade de comprar uns óculos (e tive de tratar disso aqui). Para além disso, anteontem parti um bocadinho de um dente e gostaria de tratar dele quanto antes, porque me causa grande desconforto.
Tenho muito mais para relatar, mas para já tenho acima de tudo, muito que fazer agora. Seja como for, pedem-me notícias e não quero deixar de apresentar um resumo, ainda que pouco exaustivo do que eu faço no espaço de tempo de (quase) um mês, aqui em Londres.
